Há alguns dia venho me buscando no vazio. Poderia parecer algum incomum frente a todas a atividades que se delineiam a minha frente. Livros e mais livros a serem lidos. Textos e mais textos a serem escritos. Atividades e mais atividades a serem entregues. Aulas e mais aulas a serem preparadas. Mas, como se nada tivesse a fazer, vivo a me buscar no vazio.
Questiono-me, em diversos momentos do dia, sobre o que foi que eu fiz e o que ainda tenho a fazer.
O vazio em que me encontro já não é mais um ócio criativo onde poderia produzir muito e muito mais do que esta sociedade me pede e me cobra.
Já não sei mais chorar por mais motivos que o tenha. Já não sei distinguir o que é saudade daqueles que um dia me foram caros. Os barulhos do dia a dia que anteriormente me serviam de notas a compor a sinfonia de meu caminho, já não me servem. As notas já não se cruzam mais em minhas mãos, muito menos em minha voz. O medo reaparece e o desejo de retomar aquele doce instrumento se torna mais altivo.
Uma dor me sufoca e novamente me pergunto: o que foi que eu fiz? Onde foi que me perdi deste jeito? Porque me tornei tão insensível ao que antes me tocava de maneira tão potente? A vida se tornou algo tão destemperado, inóspito, inseguro. Nem mesmo tenho confiança nos meus próprios sonhos e me sinto atado por não poder nem mesmo desejá-los mais. Faço planos sem nem mesmo saber se irei realizá-los. Acredito que só a ideia de fazer planos me projeta a frente e me faz caminhar.
Sinto meus passos sendo dados em um ambiente escuro sem nem mesmo saber se terei a frente um chão a pisar. As vezes desejo que nem mesmo o tenha. Quem sabe a ideia de um buraco negro seja a solução para este vazio em que me encontro. Eu me perdi em algum lugar do caminho e nem mesmo sei onde foi para que possa ir me reencontrar. Talvez, e somente talvez, seja o desejo de retornar a fase em que sentava na cama e dava corda naquela pequena caixinha de música. E tom sobre tom, nota por nota, ela ia se delineando a minha frente até que suas forças se acabaram.
A caixinha se foi.
As flores murcharam.
A musica já não toca mais entre meus dedos e meus dedos já não sente mais a dor de se apertarem, como num abraço, sobre aquelas cordas, para que, deste abraço, pudessem retirar as mais belas notas, mais belas músicas, mais belos sentimentos. Já não desejo os mais belos. Desejo apenas o desejar. Quero apenas uma nota após a outra e, se a corda acabar, recarregá-la novamente.
Mas, o que foi que eu fiz?